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quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Intocáveis.




Sábado passado, fui com Tiago ao cinema do MAG, para a pré-estreia do filme “Intocáveis” (“Intouchables”, já que é uma produção francesa), ainda não lançado oficialmente no Brasil. O filme superou todas as expectativas de bilheteria na França, um total sucesso. Como infelizmente não estou muito antenada com as produções cinematográficas “do momento”, tampouco com críticas, vi por indicação de uma tia muito sensível e querida, que me passou o trailler. De cara, me apaixonei com a história: um personagem segregado e com uma vida completamente mal resolvida, por um acaso do destino, passa a cuidar de um riquíssimo tetraplérgico. Encantado, a princípio, pelo conforto do seu novo endereço, o personagem (arrebatador, divertido, corajoso, destemido, espontâneo, autêntico, livre e, naturalmente, conquistador) muda, por completo, a vida daquele que passa a cuidar não como um patrão, mas como amigo. Uma troca fabulosa ocorre na vida dos dois e as diferenças sociais rendem muitas (e deliciosas) risadas. Uma relação eterna. Desses filmes que a gente não quer que acabe nunca, por nos ensinar, em menos de duas horas, o sentido da necessidade do que é intocável e de Deus: a doação, o amor e a liberdade. Também nos ensina a sermos destemidos com o “acaso” que, não por acaso, atravessa de repente as nossas vidas. Não percam.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Campeonato de Kart

Ontem foi dia de corrida: a segunda etapa do Campeonato Pernambucano de Kart. Um dia de vitórias para a Ventura Racing ( a equipe de Crispim, Fabrício Fechine, Nano Monteiro, Luís Ricardo e Rafael Câmara). Na categoria Shifter, Naninho ganhou a prova, e Fabrício ficou com o terceiro lugar. Na categoria Graduados, Fabrício foi o vencedor. Rafael também foi o primeiro na categoria Mirim, que teve grid junto com a Cadete. Mesmo não sendo da equipe, mas da família, Sérgio Crispim ganhou a prova na categoria Junior. E, para finalizar, Crispim venceu mais uma vez na categoria Sênior.


Foi uma corrida realmente emocionante!! Crispim largou na terceira posição do grid, mas assumiu a liderança logo na primeira curva. O piloto de Natal, Marcelo Filho, tomou o segundo lugar e pressionou Crispim durante toda a prova. Crispim manteve-se concentrado e sem cometer nenhum erro, conseguiu defender a primeira posição até o fim. No final da corrida, eu estava tão cansada, suada e com dor nos ombros, que parecia que tinha pilotado também!


quinta-feira, 3 de maio de 2012

Quinta Literária

Felipe lembrou-se da história do Rei do Oriente que, desejando conhecer a história da humanidade, recebeu de um sábio quinhentos volumes; ocupado com negócios de Estado, pediu-lhe que a condensasse. Ao cabo de vinte anos, o sábio voltou e a sua história ocupava agora apenas cinquenta volumes; mas o rei, já velho demais para ler tantos livros volumosos, pediu-lhe que a fosse abreviar mais uma vez. Passaram-se de novo vinte anos, e o sábio, velho e encanecido, trouxe um único volume com os conhecimentos que o rei procurara; este, porém, estava deitado no seu leito de morte, nem tinha mais tempo de ler sequer aquilo. Aí o sábio deu-lhe a história da humanidade numa única linha: "Nasceram, sofreram, morreram". 


William Somerset Maugham, em "A Servidão Humana"

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Quinta Literária

Se não temos aptidão para fazer amigos, remodelemo-nos até consegui-la. A solidão só vale como remédio, como jejum - não constitui alimento; o carácter, como Goethe o viu com tanta clareza, só se forma no tumulto da vida. Se nos tornamos excessivamente introspectivos, estamos na senda da perdição, ainda que o nosso negócio seja a psicologia; olhar com persistência excessiva para dentro de nós mesmos é provocar o desastre do jogador de ténis que conscientemente mede a distância, os ângulos e a força dos golpes, ou como o pianista que pensa nos dedos. Os amigos são necessários, não só porque nos ouvem, como porque se riem para nós; através dos amigos conseguimos um pouco de objectividade, um pouco de modéstia, um pouco de cortesia; com eles também aprendemos as regras da vida, tornando-nos melhores jogadores dos jogos que a compõem. 
Se queres ser amado, sê modesto; se queres ser admirado, sê orgulhoso; se queres as duas coisas, usa externamente a modéstia e internamente o orgulho. Mas o próprio orgulho pode ser modesto, raramente se deixando ver, e nunca se deixando ouvir.
Não revelar muita agudeza: os epigramas tornam-se odiosos quando farpeiam fundo a carne; e adoptar como lema o De vivis nil nisi bonum. Nunca provar que um homem está errado; ele não o perdoará nunca. O «nada fazer» é uma das coisas mais preciosas do mundo; frequentemente vale muito o nada fazer, e é sempre uma boa coisa o nada dizer. Ninguém deve mostrar-se ansioso de proclamar a verdade. Aceitando as convenções que a sociedade estabelece, gozamos um pouco de liberdade dentro das suas leis; isso nos permitirá tudo, se o fizermos com elegância e não o andarmos a proclamar. 



Will Durant, em Filosofia da vida

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Quinta Literária

"Os maiores acontecimentos e os maiores pensamentos – mas os maiores pensamentos são os maiores acontecimentos – são os que mais tarde se compreendem: as gerações que lhes são contemporâneas não vivem esses acontecimentos, - passam por eles. Acontece aqui algo de análogo ao que se observa no domínio dos astros. A luz das estrelas mais distantes chega mais tarde aos homens; e antes da sua chegada, os homens negam que ali – existam estrelas. “Quantos séculos precisa um espírito para ser compreendido?” – aí está também uma medida, um meio de criar uma hierarquia e uma etiqueta necessárias: para o espírito e para a estrela."


Friedrich Nietzsche, em "Para Além de Bem e Mal"

terça-feira, 17 de abril de 2012

Campeonato de Kart 2012

Neste domingo, teve início o Campeonato Pernambucano de Kart de 2012, no Kartódromo Tamboril, em Paulista, pertinho de Recife. O campeonato tem várias categorias - cadete, mirim, junior, graduado, sênior, shifter e F400 - mas vocês sabem que a que nos interessa mesmo é a sênior, na qual Crispim foi campeão no ano passado e está disputando novamente rsrsrs!!


A corrida da sênior foi a mais disputada de todas, com doze karts no grid. A prova foi movimentada, com algumas trocas de posições entre os pilotos, mas Crispim que fez a pole, largou na frente e não perdeu a liderança até o final da corrida.


No final, o pódio ficou assim: Crispim Junior (PB) em primeiro lugar, Marcelo Filho(RN) em segundo; Fabiano Laluce (PE) em terceiro, Luisinho (PE) em quarto e Jailson (RN) na quinta colocação.

A foto no pódio, com o professor da Cultura, que foi prestigiar a corrida, entregando o troféu. A premiação, a foto dos campeões da sênior e o entorse de tornozelo, quando descia do pódio, haja olho gordo rsrsrs!!



quinta-feira, 12 de abril de 2012

Quinta Literária

De uma maneira geral, há muitíssimas pessoas que não sabem rir. Aliás, isso não é coisa que se aprenda: é um dom, não se pode aperfeiçoar o riso. A não ser que nos reeduquemos interiormente, que nos desenvolvamos para melhor e que superemos os maus instintos do nosso carácter: então também o riso poderá possivelmente mudar para melhor. A pessoa manifesta no riso aquilo que é, é possível conhecermos num instante todos os seus segredos.
Mesmo o riso incontestavelmente inteligente é, às vezes, abominável. O riso exige em primeiro lugar sinceridade, mas onde está a sinceridade das pessoas? O riso exige a ausência de maldade, mas as pessoas, na maioria dos casos, riem com maldade. Um riso sincero e sem maldade é uma pura alegria, mas, nos tempos que correm, onde está a alegria? E poderão as pessoas ser alegres? 
A alegria é um dos mais reveladores traços humanos, basta a alegria para revelar as pessoas dos pés à cabeça. Por vezes não há meio de percebermos o carácter de uma pessoa, mas basta ela rir para lhe conhecermos o feitio como às palmas das nossas mãos. Só as pessoas desenvolvidas do modo mais elevado e feliz sabem ser contagiosamente alegres, de uma maneira irresistível e benévola. Não falo de desenvolvimento intelectual, mas de carácter, do homem como um todo. Portanto: se quiserdes compreender uma pessoa e conhecer-lhe a alma não presteis atenção à sua maneira de se calar, ou de falar, ou de chorar, ou de se emocionar com as ideias mais nobres, olhai antes para ela quando se ri. Ri-se bem - é boa pessoa. "


Fiodor Dostoievski, em "O Adolescente"

quinta-feira, 29 de março de 2012

Quinta literária




"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos."


                                                                                                  Fernando Pessoa

sexta-feira, 16 de março de 2012

Provavelmente um ótimo programa!!


Não sei se vocês já ouviram falar ou já viram algum vídeo desse espetáculo ( no YouTube tem muitos) , é realmente super engraçado, um humor criativo e inteligente. Eles vão se apresentar aqui em João Pessoa, nos dias 24 e 25 de março, no sábado, às 19 e 21 horas e, no domingo, às 18 horas, no teatro Paulo Pontes. Os ingressos estão sendo vendidos na Levi's do Manaíra Shopping e na bilheteria do teatro - R$60,00 inteira e R$30,00 estudante. VA- LE - A - PE - NA !!!!

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A poesia de Florbela - para reflexão

Verdades Cruéis - Florbela Espanca



Acreditar em mulheres
É coisa que ninguém faz;
Tudo quanto amor constrói
A inconstância desfaz.

Hoje amam, amanhã 'squecem,
Ora dores, ora alegrias;
E o seu eternamente
Dura sempre uns oito dias

...

Li um dia, não sei onde,
Que em todos os namorados
Uns amam muito, e os outros
Contentam-se em ser amados.

Fico a cismar pensativa
Neste mistério encantado...
Digo pra mim: de nós dois
Quem ama e quem é amado?...



Florbela D'Alma da Conceição Espanca nasceu no dia 8 de dezembro em 1894 em Vila Viçosa (Alentejo). Demorou para ser reconhecida como boa poeta. Com uma vida bastante confusa, sobretudo nos casamentos, teve apenas dois livros publicados em vida, Livro de Mágoas e Livro de Sóror Saudade. Florbela de suicidou no dia 8 de dezembro de 1930 em Matosinhos.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Teatro nas férias

Encontrei a programação do teatro Paulo Pontes para este mês de janeiro, mais uma boa opção para entreter as crianças. Os espetáculos são sempre aos sábados e domingos e às 17 horas, segue abaixo:

dias 07 e 08 - O Mágico de Oz
dias 14 e 15 - Peter Pan
dias 21 e 22 - O Gato Molhado e a Andorinha Sinhá
dias 28 e 29 - A Bela e a Fera

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Vinicius de Moraes - Do amor à pátria

São doces os caminhos que levam de volta à pátria. Não à pátria amada de verdes mares bravios, a mirar em berço esplêndido o esplendor do Cruzeiro do Sul; mas a uma outra mais íntima, pacífica e habitual - uma cuja terra se comeu em criança, uma onde se foi menino ansioso por crescer, uma onde se cresceu em sofrimentos e esperança canções, amores e filhos ao sabor das estações.

Sim, são doces as rotas que reconduzem o homem à sua pátria, e tão mais doces quanto mais ele teve, viu e conheceu outras pátrias de outros homens. Assim eu, ausente pela segunda vez de uma ausência de muitos anos quando, dentro da noite a bordo, os dedos a revirar o dial do ondas-curtas, aguardava o primeiro balbucio de minha pátria como um pai à espera da primeira palavra do seu filho. O coração batia-me como batera um dia, à poesia sonhada, ou como uma outra vez, diante de uns olhos de mulher.

- O sr. tem certeza de que isso é mesmo um ondas-curtas?

O camareiro norueguês, grande e tranqüilo, limitou-se a sorrir misteriosamente. Depois, humano, inclinou-se sobre o aparelho, o ouvido atento, e pôs-se a tentar por sua vez. As ondas sonoras iam e vinham verrumando a minha angústia.

Onde estava ela, a minha pátria que não vinha falar comigo ali dentro do mar escuro?

E de repente foi uma voz que mal se distinguia, balbuciando bolhas de éter, mas pensei no meio delas distinguir um nome: o nome de Iracema. Não tinha certeza, mas pareceu-me ouvir o nome de Iracema entre os estertores espásmicos do aparelho receptor.

Deus do Céu! Seria mesmo o nome de Iracema?

Era sim, porque logo depois chegou a afirmar-se, mas quase imperceptível, como se pronunciado por um gnomo montado em minha orelha. Era o nome de Iracema, da Rádio Iracema, de Fortaleza, a emissora dos lábios de mel, que sai mar afora, enfrentando os espaços oceânicos varridos de vento para trazer a um homem saudoso o primeiro gosto de sua pátria.

Adorável prefixo noturno, nunca te esquecerei! Foste mais uma vez essa coisa primeira tão única como o primeiro amigo, a primeira namorada, o primeiro poema. E a ti eu direi: é possível que o padre Vieira esteja certo ao dizer que a ausência é, depois da morte, a maior causa da morte do amor. Mas não do amor à terra onde se cresceu e se plantou raízes, à terra a cuja imagem e semelhança se foi feito e onde um dia, num pequeno lote, se espera poder nunca mais esperar.



* * *



Marcus Vinitius da Cruz e Mello Moraes (Rio de Janeiro, 19 de outubro de 1913 - Rio de Janeiro, 9 de julho de 1980) foi diplomata, dramaturgo, jornalista, cronista, crítico de cinema - mas principalmente poeta e compositor.

Levava a sério seu verso mais famoso sobre o amor - "que seja infinito enquanto dure": casou-se nove vezes ao longo de sua vida, sempre muito apaixonado.

Sua obra literária é extraordinariamente rica, vasta, passa pelo teatro, cinema e música. Sempre um grande poeta. Como compositor Vinícius, com Tom Jobim e na voz de João Gilberto, é um dos responsáveis pelo surgimento do ritmo popular brasileiro que ficou conhecido como bossa nova. Além de Tom, ele teve como principais parceiros Toquinho, Baden Powell, João Gilberto, Chico Buarque e Carlos Lyra.

Poeta essencialmente lírico, também conhecido como "poetinha", apelido que consta lhe foi atribuído por Tom Jobim, notabilizou-se por seus sonetos. Foi um apaixonado pela vida, pelo amor, pela amizade, pelo Brasil - era todo coração...

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Circuito do Sol em João Pessoa

No link a seguir pode ser encontrada a programação do Projeto Circuito do Sol, Da Prefeitura de João Pessoa :

http://www.joaopessoa.pb.gov.br/‘circuito-do-sol’-esquenta-verao-em-jp-com-projetos-culturais-esporte-e-lazer/

Tem atracões para todos os gostos, sempre gratuitas. Vale a pena dar uma olhada na programação e, quem sabe, prestigiar o evento ! Fica a dica !!

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Machado de Assis - Um apólogo

Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:

— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma cousa neste mundo?

— Deixe-me, senhora.

— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.

— Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.

— Mas você é orgulhosa.

— Decerto que sou.

— Mas por quê?

— É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?

— Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu e muito eu?

— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...

— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás obedecendo ao que eu faço e mando...

— Também os batedores vão adiante do imperador.

— Você é imperador?

— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto...

Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:

— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima...

A linha não respondia; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha, vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte. Continuou ainda nessa e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.

Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava de um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha para mofar da agulha, perguntou-lhe:

— Ora, agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.

Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha:

— Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico.

Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça:

— Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!



* * *



Joaquim Maria Machado de Assis (Rio de Janeiro, 21 de junho de 1839 — Rio de Janeiro, 29 de setembro de 1908).

Romancista, cronista, dramaturgo, contista, poeta, folhetinista, jornalista e crítico literário, é considerado o maior nome da literatura brasileira. Nascido no Morro do Livramento, Rio de Janeiro, de uma família pobre, mal estudou em escolas públicas e nunca frequentou universidade.

Sua superioridade intelectual não se discute, mas é de se louvar o esforço que fez para ascender socialmente. Autodidata, impressionam seus conhecimentos literários e a densidade de sua extensa obra: 9 romances e peças teatrais, 200 contos, 5 coletâneas de poemas e sonetos, e mais de 600 crônicas.

É considerado o introdutor do Realismo no Brasil, com a trilogia "Memórias Póstumas de Brás Cubas" (1881); "Quincas Borba" (1891) e "Dom Casmurro" (1899). Pessimista, irônico, nunca largou de todo um vezo romântico. Sua obra é monumental e, para o Brasil, uma glória: Machado de Assis, nome que ficou conhecido em vida nos meios acadêmicos de língua portuguesa, hoje é figura de proa entre os grandes nomes da Literatura Universal.

Ele é o fundador e primeiro ocupante da Cadeira n.º 23 da Academia Brasileira de Letras, também conhecida como Casa Machado de Assis.

Texto extraido do livro "Para Gostar de Ler - Volume 9 - Contos", Editora Ática - São Paulo, 1984, pág. 59.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

PESSOA - Essencial e necessário

Aqui, neste sossego e apartamento - Fernando Pessoa



Aqui, neste sossego e apartamento,
Nesta quieta solidão sem fim,
Sem cuidado ou tormento
Que ocupe este momento,
Da vida e mundo volto-me para mim.

Tão breve sombra do que pude ser
Me encontro, tão perdida semelhança
Com minha vida por acontecer,
Tão nocturna lembrança
Do dia e do viver,

Que se perturba a solidão, e eu moro
Entre homens novamente
E novamente cheio
O que fui de outros, e que rememoro,
E, memorando-o, é mais insubsistente.

Ténue, vazio, inútil, imperfeito.



Fernando Antônio Nogueira Pessoa (Lisboa, Portugal, 13 de junho de 1888 - Lisboa, 30 de novembro de 1935) - Considerado um dos maiores poetas da língua portuguesa, foi criado da África do Sul. Além de poeta, foi tradutor, astrólogo, jornalista, crítico literário. Se tornou também muito conhecido pelos seus heterônimos literários, com especial destaque para Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

VIVA DRUMMOND

O Seu Santo Nome - Carlos Drummond de Andrade



Não facilite com a palavra amor.
Não a jogue no espaço, bolha de sabão.
Não se inebrie com o seu engalanado som.
Não a empregue sem razão acima de toda a razão ( e é raro).
Não brinque, não experimente, não cometa a loucura sem remissão
de espalhar aos quatro ventos do mundo essa palavra
que é toda sigilo e nudez, perfeição e exílio na Terra.
Não a pronuncie.



Hoje, 31 de outubro, comemora-se o nascimento de Carlos Drummond de Andrade. Com obra das mais marcantes na poesia brasileira do século XX, o poeta criou imagens que passaram a fazer parte de nossa linguagem cotidiana. Seus versos falam da família, dos amigos, do amor, da vida, da morte. De sua dorida Itabira natal, do Rio de Janeiro que o acolheu e que ele tanto amou, do Brasil e seus problemas sociais e muito e sempre, da poesia. (Itabira do Mato Dentro, MG, em 31/10/1902 - Rio de Janeiro, RJ, 17 de agosto de 1987).

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Nesses tempos de ' Rock in Rio ' ( eca ! ... )

No contraponto ao lixo do ' Rock in Rio ' ( por que não acabam isso ? ), faço o registro de duas interpretações de classe , estilo e bom gosto ; disponíveis no You Tube. A primeira , Amy Winehouse em dueto com Tony Bennet , em versão superdescolada de 'Body and Soul ' ; a segunda , Wilson Simonal acompanhado de Tom Jobim e Menescal, na versão de ' Ana Luiza ',letra e música do próprio Tom Jobim .

domingo, 25 de setembro de 2011

A Árvore da Vida


Na última sexta-feira, fui animada ao cinema assistir a este filme e, mais uma vez, chego à conclusão de que sinopses de filmes são feitas exatamente para serem lidas antes de comprar os ingressos. Bom, se eu tivesse lido a sinopse a seguir, iria pelo menos preparada:

"Vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes o filme aproxima o foco na relação entre pai e filho de uma família comum e expande a ótica desta rica relação ao longo dos séculos desde o Big Bang até o fim dos tempos em uma fabulosa viagem pela história da vida e seus mistérios que culmina na busca pelo amor altruísta e o perdão."

O filme realmente tinha tudo para ser bom: Brad Pitt, Sean Penn e uma atriz linda que eu nunca tinha visto (Jessica Chastain) nos papéis principais; citações bíblicas, lindas imagens familiares e uma história comovente. Só que no meio de tudo isso, tem momentos intermináveis de imagens dignas do Discovery Channel. Você não sabe se fumou, dormiu e perdeu alguma coisa ou simplesmente não está entendendo. Algumas pessoas riam, outras reclamavam e outras ainda fingiam estar compreendendo tudo. O filme até consegue suscitar reflexões bem profundas, quando mostra como cada pessoa da  família é afetada e sofre por causa do mesmo acontecimento traumático, mas em algum ponto, perde o fio da meada. Tenta de forma frustrada agradar a gregos e a troianos, ou melhor, a ateus e cristãos. E todos nós sabemos que isso é uma tarefa impossível, acho que aí está a sua grande falha, não adentra profundamente em nenhuma das realidades possíveis diante de um grande sofrimento.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Viva João Cabral de Melo Neto

O fogo no canavial - João Cabral de Melo Neto



A imagem mais viva do inferno.
Eis o fogo em todos seus vícios:
eis a ópera, o ódio, o energúmeno,
a voz rouca de fera em cio.
E contagioso, como outrora
foi, e hoje, não é mais, o inferno:
ele se catapulta, exporta,
em brulotes de curso aéreo,
em petardos que se disparam
sem pontaria, intransitivos;

mas que queimada a palha dormem,
bêbados, curtindo seu litro.
(O inferno foi fogo de vista,
ou de palha, queimou as saias:
deixou nua a perna da cana,
despiu-a, mas sem deflorá-la.)





João Cabral de Melo Neto (Recife, 9 de janeiro de 1920 - Rio de Janeiro, 9 de outubro de 1999) - Além de poeta, foi um diplomata brasileiro. Classificado como poeta da geração 45, terceira geração do modernismo, foi agraciado com diversos prêmios ao longo de sua carreira de escritor. Foi membro da Academia Brasileira de Letras e da Academia Pernambucana de Letras.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Cultura às quartas

Explicação do fato parte II - Torquato Neto



Também tenho uma noite em mim tão escura
que nela me confundo e paro
e em adágio cantabile pronuncio
as palavras da nênia ao meu defunto,
perdido nele, o ar sombrio.
(Me reconheço nele e me apavoro)
Me reconheço nele,
não os olhos cerrados, a boca falando cheia,
as mãos cruzadas em definitivo estado, se enxergando,
mas um calor de cegueira que se exala dele
e pronto: ele sou eu,
peixe boi devolvido à praia, morto,
exposto à vigilância dos passantes.
Ali me enxergo, à força no caixão do mundo
sem arabescos e sem flores.
Tenho muito medo.
Mas acordo e a máquina me engole.
E sou apenas um homem caminhando
e não encontro em minha vestimenta
bolsos para esconder as mãos, armas, que, mesmo frágeis,
me ameaçam.
Como não ter medo?
Uma noite escura sai de mim e vem descer aqui
sobre esta noite maior e sem fantasmas.
como não morrer de medo se esta noite é fera
e dentro dela eu também sou fera e me confundo nela e
ainda insisto?
Não é viável.
Nem eu mesmo sou viável, e como não? Não sou.
O que é viável não existe, passou há muito tempo
e eram manhãs e tardes e manhãs com sol e chuva
e eu menino.
eram manhãs e tardes e manhãs sem pernas
que escorriam em tardes e manhãs sem pernas
e eu sentado num tanque absurdamente posto no meio da rua,
menino sentado sem a preocupação da ida.
E era todo dia.
Havia sol
e eu o sabia
sol: era de dia
Havia uma alegria
do tamanho do mundo
e era dia no mundo.
Havia uma rua
(debaixo dum dia)
e um tanque.
Mas agora é noite até no sol.




Torquato Pereira de Araújo Neto (Teresina, Piauí, 9 de novembro de 1944 - Rio de Janeiro, 10 de novembro de 1972). Poeta, letrista e crítico de música, foi figura essencial na efervescência cultural dos anos 60. Foi nome e porta-voz do Tropicalismo, da poesia Concreta e da música brasileira naquela época. Escrevia crítica de música para o Geléia Geral.


NOTA

Torquato Neto foi dos poetas essenciais para a minha formação política e humanística , a exemplo de Thiago de Melo , Vinicius de Moraes , Carlos Drummond de Andrade , João Cabral de Mello Neto , Manuel Bandeira e Fernando Pessoa , dentre muitos que se inseriram no contexto de fazer literatuta/poesia comprometida com o Homem em toda a sua plenitude cósmica ( Carlos Candeia ).